quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Um natal de aparências

O dia estava cinza e não parava de chover. A água era torrencial, parecia nunca ter um fim e se entrançava com um frio contínuo, quase como se o mundo não parasse de soprar o ar de seus pulmões. Mesmo em meio às poças sem fim e com os ventos congelantes a manha se esticava se forma aconchegante, como um abraço gentil, mesmo que frio. Estava sendo uma pressa na cozinha, preparativos sem fim, pois a ceia era um dos auges da noite então tudo teria que estar em mil maravilhas.
Um pouco distante da cozinha e da alegria que nela habitava havia alguém sofrendo calado, quieto em seu canto, parado e sozinho, apenas ouvindo a chuva e como o céu ele chora... Lágrimas sem fim. A porta do quarto permanecesse fechada, trancada com o máximo de voltas possíveis, para impedir que qualquer um possa vê-lo em sua dor. E junto de seu medo ele continua se desmanchando sobre sua cama, chorando sem parar com um travesseiro cobrindo a boca para abafar o som, se desfazendo em lágrimas com tamanha intensidade que até seu corpo treme. Muitas imagens passam sob seus olhos afogados, fazendo o tempo parar algumas vezes, focando principalmente em dias ensolarados em que um companheiro de quatro patas corria ao seu lado, deixando fios de baba para trás enquanto avançava livre pelo mundo.
Na outra extremidade da casa, do lado de fora, há uma senhora, que mora relativamente perto, com as costas junto à parede, de forma que evita um banho de chuva mais forte. Seu corpo treme misto do frio e do próprio peso da idade, mesmo envolta em agasalhos nada parece salvá-la do “congelamento”.  Não dá para saber se ela chora ou se é apenas a chuva escorrendo pelo seu rosto, mas seu coração sim está reclamado em dores. Seu ventre havia abrigado muitos corações, seu corpo mudado tanto por algumas vidas e sua própria essência tinha se modificado várias vezes em busca de alegria para seus filhos, mas então veio a idade e o tempo... Juntos afastaram-na de todos, fazendo com que ela vivesse sozinha, mesmo que todos os descendentes ainda vivessem. E, embora, ela tenha sido importante para tantos durante vários anos agora ela caminha sozinha, afugentando a tristeza com seus pequenos companheiros animais.
Da cozinha movimentada exalavam perfumes dos mais variados tipos, partindo de condimentos e especiarias até o aroma de carne assando. Chega a ser uma disputa para ver quem faz o prato mais encantador e organizado. Boa parte da família está lá reunida, organizando tudo na maior felicidade, brindando com vinho e gargalhando entre conversas mal acabadas.  Entre os componentes da família a filha mais velha é quem está mais calada, apenas trabalhando e fazendo o que lhe pedem, sem reclamar, apenas preparando o jantar de forma quieta, mas por dentro seu mundo está preso em um temporal muito mais forte do que o que está acontecendo na cidade. Mesmo que suas mãos habilidosas tratem dos alimentos com cuidado sua mente está presa em outro lugar, mais precisamente em outra pessoa. Só de lembrar-se da imagem da garota que tanto ama o coração da menina acelerou e ela teve que fazer um esforço mais do que torturante para não chorar, visto que nunca poderia falar de si para sua família e assumir quem amava. Mesmo sorrindo por fora a filha mais velha estava se desfazendo em prantos por dentro, sofrendo calada por não poder ser quem era e ter que viver em meio a uma prisão de espelhos, os quais mostravam reflexos dela para o mundo, porém nunca a sua real imagem.
O pai chegou em casa do seu último dia trabalhando, sua firma extremamente exigente não dava quase folgas, mesmo num dia tão especial ele tivera que ir, mas em contra partida acabara recebendo uma notícia não muito boa... Estava demitido, não havia volta, era o fim para ele lá e os chefes acharam motivos até inexistentes para conseguirem coloca-lo para fora sem lhe dever sequer algum direito.  E foi assim, após tantos anos vivendo pela empresa ele agora tinha sido chutado para fora como um cachorro idoso, o qual era abandonado pela família, jogado à chuva e a sua própria sorte. E agora ele estava parado na porta da sala de sua casa, com um peso silencioso gigantesco em seus ombros molhados pela chuva, mas sem querer preocupar ninguém ele sorriu e abraçou os filhos, com o coração se despedaçando por dentro com medo do futuro, sorrindo com um esforço excruciante para mostrar que tudo estava bem... Mesmo que no silêncio escuro da noite a verdade fosse revelada e todos percebessem nada estava bem.
Assim o dia foi se passando, cada um se correndo com suas dores e escondendo-as da melhor forma que conseguiam. Impondo sorrisos e escondendo lágrimas ou disfarçando-as culpando a chuva que ainda caía. O mundo continuava queimando com dor o coração de cada um e mesmo assim havia uma “felicidade” ao redor da ceia. Não importando o quando doesse eles ainda estavam juntos e continuavam vivendo cada um em sua prisão de espelhos de vidro, na mais clara tradução da falsa aparência.



domingo, 20 de dezembro de 2015

Ele

Estava sendo uma noite fria e a temperatura não passaria de vinte graus durante toda a madrugada, pelo menos de acordo com a previsão do tempo dada no jornal, talvez até fosse chover um pouco depois das duas. Era aconselhável ficar em casa se pudesse, mas a vida não estava sendo fácil e mais uma falta acabaria com alguns bons socos pelo corpo. O rapaz vestiu-se de uma forma mais agasalhada, mesmo que não cobrisse tanto assim seu corpo, ele sabia que continuaria sentindo frio, porém era o que podia fazer. Ele saiu de sua pequena casa vestindo uma calça jeans e camiseta de mangas compridas, bem justas ao corpo, de forma que deixasse seus músculos bem definidos, exaltando sua beleza física.
A porcaria do frio estava pior do que o esperado, o rapaz tremia dos pés à cabeça enquanto andava pelas ruelas solitárias de sua cidade. Não havia mais ninguém em canto algum, nem mesmo nas esquinas aparecia uma alma que fosse, era apenas o céu escuro e encoberto de nuvens, os prédios e ele. Ele chegou ao seu lugar habitual e sentiu-se um pouco mais aliviado ao ver que tinha alguns outros companheiros de trabalho encostados nas árvores, postes e paredes. 
Era algo que ele odiava. Todas as noites aqueles mesmos sorrisos sínicos e mãos curiosas. Corpos expostos nas ruas como pedaços de carne na vitrine de um açougue, apenas esperando por seu comprador. Pessoas fingindo felicidade e prazeres onde havia de tudo, partindo de nojo e desprezo a medo e terror, exceto algo bom e prazeroso. Ele olhava para seu corpo e sentia horror, sempre que chegava em casa, tomava banhos sem fim, esfregando a pele até que ela ardesse. Repetindo o ciclo todos os dias. Passava suas tardes chorando e então anoitecia e ele tinha que parar com isso, se arrumar e então ir trabalhar, mesmo que aquilo rasgasse seu peito todas as vezes que deitava a cabeça no travesseiro antes de dormir.
Ele apenas queria gritar e parar com tal coisa, mas esse submundo noturno era poderoso demais, depois do primeiro momento nele, os braços negros não largavam mais, apenas ficavam mais fortes, prendendo com mais crueldade, exigindo mais do que seria tido como possível.  Era tarde demais para sair, ele estava condenado e ser um pedaço de carne por muitos anos, tempo suficiente para que sua beleza se esvaísse entre clientes. Tempo suficiente para que seu sorriso falsificado deixasse de ser atrativo. Tempo suficiente para que os músculos tão chamativos começassem a atrofiar, diminuindo seu volume. Tempo suficiente para que toda aquelas imagem de um deus grego fosse trocada por a de um homem sofrido e marcado pela dor.
 E mais uma vez ele estava lá, não podendo reclamar do frio ou da chuva que já começava a cair levemente, parado em sua vitrine invisível, esperando que algum carro passasse e parasse. Que talvez o vidro baixasse e alguém chamasse com aquele gesto de mão, como se tratasse com algum animal sujo. Palavras trocadas, preços acertados e bum, viria o prazer e algum tempo depois a tristeza.
Ops, alguém chegou e ele precisou ir para frente da vitrine, vender a carne de seu corpo, como se não tivesse seus próprios desejos e anseios. Servindo apenas como um brinquedo, uma escultura viva, que não poderia nunca conhecer o amor e boas emoções, aquele pobre garoto que estava fadado a viver no mundo escuro, sem poder, em hipótese alguma, fugir em busca de sua própria vida, sendo para sempre aquele ao qual o desespero e solidão chamavam.



quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

A marca de um estupro / Tag, you're it

E ela correu. Correu como uma bala que se afasta da arma de qual foi disparada. Correu como nunca em sua vida, ao ponto de sentir o sangue encarnado pulsando com força em seus ouvidos.  A garota corria tanto que até poderia devanear que o vento a empurrava, como se tivesse mãos invisíveis empurrando-a para frente... Porém nada pôde salvá-la do homem que a perseguia.
Ela atravessou um estacionamento frio e feio, quase sem carro algum, num misto de abandono e desprezo, deixando-o com uma aparência perigosa e triste ao mesmo tempo. Lágrimas torrenciais escorriam de seus olhos cor de mel escuro. Os cabelos, agora desgrenhados e bagunçados, se debatiam como chicotes por causa do vento congelante, o qual parecia perfurar os ossos.  O batom roxo escuro manchava até mesmo suas bochechas após o agarrado furioso e faminto do homem que a desejava. Seu vestido preto e justo tinha alguns rasgos depois das mãos ávidas dele agarrem-na, puxando-a de um lado para o outro.
A respiração forte e pesada dele parecia apenas aumentar de intensidade, era quase como se já desse para sentir o hálito quente e com odor de álcool roçando em sua nuca e queimando as narinas. O fôlego fizera as malas e fora embora dos pulmões, de forma que gritar não era mais uma opção. As pernas se moviam ligeiras, numa velocidade impossível para aquela garota, contudo todo o mundo trincou sob seus pequenos pés descalços quando uma mão forte agarrou seu braço, sendo seguida de pronto por outra que lhe tapou a boca, manchando mais o rosto com batom e impedindo de uma vez por todas os chamados de socorro.
O homem mau era forte demais. Cruel demais. Inumano demais. Ele abraçou por trás com toda violência, esfregando seu corpo no da garota e começou a puxá-la para trás, lambendo seu pescoço, mordendo sua orelha. Espernear não adiantou. Chorar também não. Morder os dedos dele até sentir seu sangue amargo só conseguiu fazê-lo gargalhar.
Ah pequena garotinha... Você será minha, só minha...! Para sempre!
Entre um carro e outro havia alguns papelões espalhados, quase que planejados para tal situação. A garota foi jogada ao chão, rasgando a pele dos cotovelos e braços sem qualquer piedade. Tudo nela era só dor e desespero. A carne parecia presa aos ossos por toneladas de concreto. A voz queria sair de sua garganta, porém nenhum som era emitido, além da respiração pesada dele.
O que restava do vestido foi feito em farrapos por mãos fortes, brutas e cruéis com apoio de dentes afiados e ferozes. O brilho de uma faca iluminava o sorriso diabólico do homem mau, deixando-o ainda mais assustador. As pernas frágeis e cansadas foram forçadas e abriram espado, revelando a veste íntima. Ele empurrou dois dedos para dentro dela sem a menor clemencia, rasgando a roupa e já a machucando levemente. Num último clamor a pequena mulher gritou por socorro, mas nada aconteceu, ninguém poderia mais impedi-lo.
Sua gargalha parecia cortar os tímpanos dela enquanto puxava de volta os dedos molhados do interior dela, esfregando-os no corpo ferido. Ele desceu suas calças e puxou qualquer vestimenta que pudesse atrapalhá-lo. A dor era terrível, indescritível, ficando pior a cada novo movimento dele. Ele estava debruçado sobre ela, usando seu corpo para prendê-la no chão. O sofrimento era lacerante, parecia rasgar cada centímetro de seu corpo bem devagar. Torturava. Queimava. Lacerava. Destruía... Chegou a parecer que ele usava a faca para rasgar seu corpo ao meio.
Suas unhas pintadas estavam todas quebradas e sangrando depois de tanto bater nele tentando se ver livre de seu agressor demoníaco, mas de nada serviram. O veneno dele escorria pelo corpo dela, queimando seu interior como um ácido forte.
Só minha, para sempre!

 Ele levantou-se e pegou a faca, olhando no fundo dos olhos dela, pronto para rasgar seu coração ao meio  e foi então que ela voltou á realidade, quase caindo para trás na cadeira em que estava sentada e de onde encarava o seu futuro agressor. Teria sido culpa daquela quantidade exagerada de drinks? Ou era realmente um aviso do futuro? Mesmo assim ela não quis saber e foi embora da festa, deixando seus amigos para trás e embarcado direto em um táxi, fugindo para sua casa, trancando a porta e passando o resto da semana sem esquecer aquele devaneio assustador, a marca do estupro estava nela para sempre. 

sábado, 12 de dezembro de 2015

O idoso estranho da vizinhança

O velho Joaquim caminha vagarosamente pelos corredores de sua casa solitária, arrastando a perna com cicatrizes e que já não é mais lá essas cosias. Sua bengala serve mais do que um simples apoio, é quase como uma parte de seu corpo de tanto tempo que passam juntos. Suas vestes são sempre do mesmo estilo, fofas, confortáveis e com mangas curtas, mostrando a pele dos braços, num misto de pelos brancos e pequenas cicatrizes, algumas mal davam para ver enquanto outras duas eram maiores, como se tivesse sido resultado de uma facada severa.
Os cabelos pálidos encontravam-se escassos, quase não havia mais aglomerados grandes, a maior parte da pele era visível e contrastava com o cavanhaque grosso em seu queixo. Um de seus olhos era leitoso e a pele próxima da região ocular era enrugada demais, como a pele de um lagarto prestes a fazer a troca. Mesmo com todas as marcas, o velhinho tinha um sorriso verdadeiro em seus lábios claros, daquele tipo que traz certa paz apenas de ser observado.
Seus passos vagarosos terminaram levando-o a uma cadeira do lado de fora de sua casa, na pequena parte coberta antes da porta de entrada, Joaquim deixou-se cair no acolchoado marrom claro. Sentindo todos os ossos estalando com o movimento o idoso deixou uma gargalhada dolorosa escapar. Mesmo tendo um senso de humor extremamente grande, talvez até maior que ele mesmo, os vizinhos não o encaravam muito bem, as crianças o insultavam de estranho e assustador, corriam ao se aproximarem dele e faziam travessuras em seu jardim.
Os próprios adultos não eram tão diferentes, a maioria olhava torto para o idoso todo marcado e ferido, quase como se tivesse alguma doença letal e contagiosa, deixando-se guiar em seus próprios preconceitos não tentavam entender o que havia por trás das marcas e cicatrizes. Havia histórias de que ele tinha sido um grande traficante em seu auge de vida, por isso tinha tantos problemas de saúde e tantos ferimentos pelo corpo devidos as várias brigas por lugares que pudesse vender.
Havia gente que contava historias sobre como ele era um velho sobrevivente da máfia, ou que era um protegido pela polícia e após ser uma testemunha de grande importância. Milhares de murmúrios e conversinhas havia sobre o velho estranho da casa de esquina, porém ninguém se aproximava dele, oferecia-lhe a mão ou pelo menos um sorriso, embebidos pelo medo do que poderia ter causado todos os ferimentos dele. Joaquim chegava a achar tal coisa engraçada, sua vida tinha sido tão diferente de tais histórias que chegava a fazê-lo gargalhar sozinho, ou pelo menos era assim desde que sua esposa tinha se mudado desse mundo.
_Acho que vou visitá-la hoje... Melhor tirar essa barba, não é meu amor? – O velho falou para o ar enquanto pensava com que roupa iria ao cemitério.
Ele entrou e seguiu em seu ritmo para o banheiro, tirando suas roupas devagar, mostrando o entrançado gigantesco de marcas por todo seu corpo, em sua nudez completa o idoso se olhou no espelho, vendo um homem jovem bonito, com traços retos e imponentes, com o peito inflado cheio de medalhas de condecorações militares. O mesmo sorriso que emanava paz, contrastando com o mesmo olho leitoso e rosto marcado pelos restos de uma explosão, ao se jogar para salvar um pequeno grupo de civis o grande homem tivera seu corpo castigado pelo fogo e destroços, marcando-o para sempre para ser esquecido no tempo, deixando de ser aquele forte herói para se tornar apenas o velho estranho da vizinhança.

Antes de ir para debaixo do chuveiro, o antigo Coronel Joaquim, viu o quadro de suas medalhas pendurado na parede e sorriu mais uma vez, não importava o quanto as pessoas próximas dele o achassem feio e estranho, para uma mulher ele tinha sido o homem mais importante e também para aquele pequeno grupo de pessoas ele seria um eterno herói. 

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

A rotina sob os olhos de um problemático

Há um rapaz sentado em frente a uma igreja, as paredes laranjas já se encontravam sujas e com mofo crescendo para todas as direções, num padrão mais que incalculável, o garoto estava encarando a decadência de um lugar tão especial, era uma construção tão bonita, mas o tempo e o descaso humano permaneciam destruindo tudo, ao se tocar sobre o que estava pensando o rapaz deixou um sorriso desenhar-se em seus lábios, o sol mal tinha nascido e os pensamentos mórbidos já tinham começado, era um record.
 Pessoas começam a passar por ele, já que a igreja era o centro de toda a cidade, aglomerações humanas seriam mais que normais ali. Aqueles que estão passando por perto para o menino não tem cor, gênero ou algo para defini-los, não passam de silhuetas cinza e sem vida, emoções, anseios, desejos ou até mesmo medos. São apenas escravos do tempo e da rotina, andam como robôs depressivos, em passos ritmados e duros, quase como se não houvesse vida nos corpos, por isso ele não lhes da muita atenção. Mas até mesmo no meio de tanta igualdade há aquelas pequenas diferenças, os fracos gritos de liberdade e vida são presentes, no lugar em que estava eram muito poucos, contudo, ao menos, existiam.
A primeira que tinha a diferença gritando era uma senhora de pele escura e cabelos tão brancos quanto o leite. Seu corpo pequeno e castigado pelo tempo vinha se movendo vagarosamente, sem pressa alguma, em seu próprio ritmo, como se vivesse em seu próprio mundo. Ela aparentava estar cansada, os olhos pesarosos acompanhavam o movimento da rua e das calçada, então encontraram com os do garoto, aquelas pequenas bolinhas verdes escuras sorriam com verdade, não como o de todas as atendentes de corporizações, com aquela falsa simpatia, esses tinham uma pincelada de pureza que não se via em muita gente, nos dias atuais. Um sorriso tímido surgiu no rosto cheio de rugas da idosa e nele havia mais sentimento do que no olhar e tocado por tal gesto o garoto retribuiu junto de um gesto de cabeça. Após adoçar o dia dele a velhinha sumiu por entre a massa de pessoas.
Será que eu conseguiria chegar a essa idade e permanecer com um sorriso assim no rosto? Acho que não... Será ao menos que consigo envelhecer? Não, com certeza, não, nunca consegui me imaginar envelhecendo. - Ele pensou consigo mesmo e encostou a cabeça na parede, os pensamentos mórbidos voltaram.
Então mais uma pessoa gritante de verdade passou em sua frente. Era uma garota branca demais, quase chegando a ser albina, com os cabelos louros livres ao vento forte da manhã. Ela escondia seus olhos atrás de óculos escuros e tinha os lábios pintados de roxo vivo. Usava uma calça jeans azul clara bem justa ao corpo e uma blusa branca toda cortada que basicamente só cobria o busto e os braços, pois o tecido acabava pouco após os seios. Ela passou e percorreu o corpo do garoto, com um gesto leve de cabeça, encostado na parede da entrada da igreja decadente e jogou para ele uma caixa de chicletes.
_Se anima aê. - Sequer parou de se mover, continuou andando em seu gingado próprio, exalando liberdade e confiança, deixando o garoto mais reconfortado.
Ela é tão livre, como um pássaro que rasga os céus e eu continuo aqui como uma pedra, ou um pequeno rouxinol preso em sua gaiola de vidro... Será que um dia alcançarei o alto das nuvens? É, acho que não, serei sempre esse peso e nunca poderei voar. - Outra vez os pensamentos sombrios vieram, porém agora ele agarrou o chiclete e mastigou vários, deixando o gosto forte de menta silenciar as vozes.
O ônibus que ele tinha que pegar estava vindo, sendo assim, o garoto se levantou e ficou na beirada da calçada, fazendo sinal para que o veículo parasse ele pudesse entrar, finalmente sua espera tinha acabado e ele estaria em movimento mais uma vez, seguindo sua vida como se nada atormentasse sua mente e para sua surpresa, havia alguém para conversar na poltrona do lado, alguém que conseguiria calar as vozes.