sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

A rotina sob os olhos de um problemático

Há um rapaz sentado em frente a uma igreja, as paredes laranjas já se encontravam sujas e com mofo crescendo para todas as direções, num padrão mais que incalculável, o garoto estava encarando a decadência de um lugar tão especial, era uma construção tão bonita, mas o tempo e o descaso humano permaneciam destruindo tudo, ao se tocar sobre o que estava pensando o rapaz deixou um sorriso desenhar-se em seus lábios, o sol mal tinha nascido e os pensamentos mórbidos já tinham começado, era um record.
 Pessoas começam a passar por ele, já que a igreja era o centro de toda a cidade, aglomerações humanas seriam mais que normais ali. Aqueles que estão passando por perto para o menino não tem cor, gênero ou algo para defini-los, não passam de silhuetas cinza e sem vida, emoções, anseios, desejos ou até mesmo medos. São apenas escravos do tempo e da rotina, andam como robôs depressivos, em passos ritmados e duros, quase como se não houvesse vida nos corpos, por isso ele não lhes da muita atenção. Mas até mesmo no meio de tanta igualdade há aquelas pequenas diferenças, os fracos gritos de liberdade e vida são presentes, no lugar em que estava eram muito poucos, contudo, ao menos, existiam.
A primeira que tinha a diferença gritando era uma senhora de pele escura e cabelos tão brancos quanto o leite. Seu corpo pequeno e castigado pelo tempo vinha se movendo vagarosamente, sem pressa alguma, em seu próprio ritmo, como se vivesse em seu próprio mundo. Ela aparentava estar cansada, os olhos pesarosos acompanhavam o movimento da rua e das calçada, então encontraram com os do garoto, aquelas pequenas bolinhas verdes escuras sorriam com verdade, não como o de todas as atendentes de corporizações, com aquela falsa simpatia, esses tinham uma pincelada de pureza que não se via em muita gente, nos dias atuais. Um sorriso tímido surgiu no rosto cheio de rugas da idosa e nele havia mais sentimento do que no olhar e tocado por tal gesto o garoto retribuiu junto de um gesto de cabeça. Após adoçar o dia dele a velhinha sumiu por entre a massa de pessoas.
Será que eu conseguiria chegar a essa idade e permanecer com um sorriso assim no rosto? Acho que não... Será ao menos que consigo envelhecer? Não, com certeza, não, nunca consegui me imaginar envelhecendo. - Ele pensou consigo mesmo e encostou a cabeça na parede, os pensamentos mórbidos voltaram.
Então mais uma pessoa gritante de verdade passou em sua frente. Era uma garota branca demais, quase chegando a ser albina, com os cabelos louros livres ao vento forte da manhã. Ela escondia seus olhos atrás de óculos escuros e tinha os lábios pintados de roxo vivo. Usava uma calça jeans azul clara bem justa ao corpo e uma blusa branca toda cortada que basicamente só cobria o busto e os braços, pois o tecido acabava pouco após os seios. Ela passou e percorreu o corpo do garoto, com um gesto leve de cabeça, encostado na parede da entrada da igreja decadente e jogou para ele uma caixa de chicletes.
_Se anima aê. - Sequer parou de se mover, continuou andando em seu gingado próprio, exalando liberdade e confiança, deixando o garoto mais reconfortado.
Ela é tão livre, como um pássaro que rasga os céus e eu continuo aqui como uma pedra, ou um pequeno rouxinol preso em sua gaiola de vidro... Será que um dia alcançarei o alto das nuvens? É, acho que não, serei sempre esse peso e nunca poderei voar. - Outra vez os pensamentos sombrios vieram, porém agora ele agarrou o chiclete e mastigou vários, deixando o gosto forte de menta silenciar as vozes.
O ônibus que ele tinha que pegar estava vindo, sendo assim, o garoto se levantou e ficou na beirada da calçada, fazendo sinal para que o veículo parasse ele pudesse entrar, finalmente sua espera tinha acabado e ele estaria em movimento mais uma vez, seguindo sua vida como se nada atormentasse sua mente e para sua surpresa, havia alguém para conversar na poltrona do lado, alguém que conseguiria calar as vozes.

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