O dia estava cinza e
não parava de chover. A água era torrencial, parecia nunca ter um fim e se
entrançava com um frio contínuo, quase como se o mundo não parasse de soprar o
ar de seus pulmões. Mesmo em meio às poças sem fim e com os ventos congelantes
a manha se esticava se forma aconchegante, como um abraço gentil, mesmo que
frio. Estava sendo uma pressa na cozinha, preparativos sem fim, pois a ceia era
um dos auges da noite então tudo teria que estar em mil maravilhas.
Um pouco distante da
cozinha e da alegria que nela habitava havia alguém sofrendo calado, quieto em
seu canto, parado e sozinho, apenas ouvindo a chuva e como o céu ele chora...
Lágrimas sem fim. A porta do quarto permanecesse fechada, trancada com o máximo
de voltas possíveis, para impedir que qualquer um possa vê-lo em sua dor. E
junto de seu medo ele continua se desmanchando sobre sua cama, chorando sem
parar com um travesseiro cobrindo a boca para abafar o som, se desfazendo em
lágrimas com tamanha intensidade que até seu corpo treme. Muitas imagens passam
sob seus olhos afogados, fazendo o tempo parar algumas vezes, focando
principalmente em dias ensolarados em que um companheiro de quatro patas corria
ao seu lado, deixando fios de baba para trás enquanto avançava livre pelo
mundo.
Na outra extremidade
da casa, do lado de fora, há uma senhora, que mora relativamente perto, com as
costas junto à parede, de forma que evita um banho de chuva mais forte. Seu corpo
treme misto do frio e do próprio peso da idade, mesmo envolta em agasalhos nada
parece salvá-la do “congelamento”. Não
dá para saber se ela chora ou se é apenas a chuva escorrendo pelo seu rosto,
mas seu coração sim está reclamado em dores. Seu ventre havia abrigado muitos
corações, seu corpo mudado tanto por algumas vidas e sua própria essência tinha
se modificado várias vezes em busca de alegria para seus filhos, mas então veio
a idade e o tempo... Juntos afastaram-na de todos, fazendo com que ela vivesse
sozinha, mesmo que todos os descendentes ainda vivessem. E, embora, ela tenha
sido importante para tantos durante vários anos agora ela caminha sozinha,
afugentando a tristeza com seus pequenos companheiros animais.
Da cozinha
movimentada exalavam perfumes dos mais variados tipos, partindo de condimentos
e especiarias até o aroma de carne assando. Chega a ser uma disputa para ver
quem faz o prato mais encantador e organizado. Boa parte da família está lá
reunida, organizando tudo na maior felicidade, brindando com vinho e
gargalhando entre conversas mal acabadas. Entre os componentes da família a filha mais
velha é quem está mais calada, apenas trabalhando e fazendo o que lhe pedem,
sem reclamar, apenas preparando o jantar de forma quieta, mas por dentro seu
mundo está preso em um temporal muito mais forte do que o que está acontecendo
na cidade. Mesmo que suas mãos habilidosas tratem dos alimentos com cuidado sua
mente está presa em outro lugar, mais precisamente em outra pessoa. Só de lembrar-se
da imagem da garota que tanto ama o coração da menina acelerou e ela teve que
fazer um esforço mais do que torturante para não chorar, visto que nunca
poderia falar de si para sua família e assumir quem amava. Mesmo sorrindo por
fora a filha mais velha estava se desfazendo em prantos por dentro, sofrendo
calada por não poder ser quem era e ter que viver em meio a uma prisão de
espelhos, os quais mostravam reflexos dela para o mundo, porém nunca a sua real
imagem.
O pai chegou em casa
do seu último dia trabalhando, sua firma extremamente exigente não dava quase
folgas, mesmo num dia tão especial ele tivera que ir, mas em contra partida
acabara recebendo uma notícia não muito boa... Estava demitido, não havia
volta, era o fim para ele lá e os chefes acharam motivos até inexistentes para
conseguirem coloca-lo para fora sem lhe dever sequer algum direito. E foi assim, após tantos anos vivendo pela
empresa ele agora tinha sido chutado para fora como um cachorro idoso, o qual
era abandonado pela família, jogado à chuva e a sua própria sorte. E agora ele
estava parado na porta da sala de sua casa, com um peso silencioso gigantesco
em seus ombros molhados pela chuva, mas sem querer preocupar ninguém ele sorriu
e abraçou os filhos, com o coração se despedaçando por dentro com medo do
futuro, sorrindo com um esforço excruciante para mostrar que tudo estava bem...
Mesmo que no silêncio escuro da noite a verdade fosse revelada e todos
percebessem nada estava bem.
Assim o dia foi se
passando, cada um se correndo com suas dores e escondendo-as da melhor forma
que conseguiam. Impondo sorrisos e escondendo lágrimas ou disfarçando-as
culpando a chuva que ainda caía. O mundo continuava queimando com dor o coração
de cada um e mesmo assim havia uma “felicidade” ao redor da ceia. Não importando
o quando doesse eles ainda estavam juntos e continuavam vivendo cada um em sua
prisão de espelhos de vidro, na mais clara tradução da falsa aparência.
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