domingo, 20 de dezembro de 2015

Ele

Estava sendo uma noite fria e a temperatura não passaria de vinte graus durante toda a madrugada, pelo menos de acordo com a previsão do tempo dada no jornal, talvez até fosse chover um pouco depois das duas. Era aconselhável ficar em casa se pudesse, mas a vida não estava sendo fácil e mais uma falta acabaria com alguns bons socos pelo corpo. O rapaz vestiu-se de uma forma mais agasalhada, mesmo que não cobrisse tanto assim seu corpo, ele sabia que continuaria sentindo frio, porém era o que podia fazer. Ele saiu de sua pequena casa vestindo uma calça jeans e camiseta de mangas compridas, bem justas ao corpo, de forma que deixasse seus músculos bem definidos, exaltando sua beleza física.
A porcaria do frio estava pior do que o esperado, o rapaz tremia dos pés à cabeça enquanto andava pelas ruelas solitárias de sua cidade. Não havia mais ninguém em canto algum, nem mesmo nas esquinas aparecia uma alma que fosse, era apenas o céu escuro e encoberto de nuvens, os prédios e ele. Ele chegou ao seu lugar habitual e sentiu-se um pouco mais aliviado ao ver que tinha alguns outros companheiros de trabalho encostados nas árvores, postes e paredes. 
Era algo que ele odiava. Todas as noites aqueles mesmos sorrisos sínicos e mãos curiosas. Corpos expostos nas ruas como pedaços de carne na vitrine de um açougue, apenas esperando por seu comprador. Pessoas fingindo felicidade e prazeres onde havia de tudo, partindo de nojo e desprezo a medo e terror, exceto algo bom e prazeroso. Ele olhava para seu corpo e sentia horror, sempre que chegava em casa, tomava banhos sem fim, esfregando a pele até que ela ardesse. Repetindo o ciclo todos os dias. Passava suas tardes chorando e então anoitecia e ele tinha que parar com isso, se arrumar e então ir trabalhar, mesmo que aquilo rasgasse seu peito todas as vezes que deitava a cabeça no travesseiro antes de dormir.
Ele apenas queria gritar e parar com tal coisa, mas esse submundo noturno era poderoso demais, depois do primeiro momento nele, os braços negros não largavam mais, apenas ficavam mais fortes, prendendo com mais crueldade, exigindo mais do que seria tido como possível.  Era tarde demais para sair, ele estava condenado e ser um pedaço de carne por muitos anos, tempo suficiente para que sua beleza se esvaísse entre clientes. Tempo suficiente para que seu sorriso falsificado deixasse de ser atrativo. Tempo suficiente para que os músculos tão chamativos começassem a atrofiar, diminuindo seu volume. Tempo suficiente para que toda aquelas imagem de um deus grego fosse trocada por a de um homem sofrido e marcado pela dor.
 E mais uma vez ele estava lá, não podendo reclamar do frio ou da chuva que já começava a cair levemente, parado em sua vitrine invisível, esperando que algum carro passasse e parasse. Que talvez o vidro baixasse e alguém chamasse com aquele gesto de mão, como se tratasse com algum animal sujo. Palavras trocadas, preços acertados e bum, viria o prazer e algum tempo depois a tristeza.
Ops, alguém chegou e ele precisou ir para frente da vitrine, vender a carne de seu corpo, como se não tivesse seus próprios desejos e anseios. Servindo apenas como um brinquedo, uma escultura viva, que não poderia nunca conhecer o amor e boas emoções, aquele pobre garoto que estava fadado a viver no mundo escuro, sem poder, em hipótese alguma, fugir em busca de sua própria vida, sendo para sempre aquele ao qual o desespero e solidão chamavam.



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