sábado, 12 de dezembro de 2015

O idoso estranho da vizinhança

O velho Joaquim caminha vagarosamente pelos corredores de sua casa solitária, arrastando a perna com cicatrizes e que já não é mais lá essas cosias. Sua bengala serve mais do que um simples apoio, é quase como uma parte de seu corpo de tanto tempo que passam juntos. Suas vestes são sempre do mesmo estilo, fofas, confortáveis e com mangas curtas, mostrando a pele dos braços, num misto de pelos brancos e pequenas cicatrizes, algumas mal davam para ver enquanto outras duas eram maiores, como se tivesse sido resultado de uma facada severa.
Os cabelos pálidos encontravam-se escassos, quase não havia mais aglomerados grandes, a maior parte da pele era visível e contrastava com o cavanhaque grosso em seu queixo. Um de seus olhos era leitoso e a pele próxima da região ocular era enrugada demais, como a pele de um lagarto prestes a fazer a troca. Mesmo com todas as marcas, o velhinho tinha um sorriso verdadeiro em seus lábios claros, daquele tipo que traz certa paz apenas de ser observado.
Seus passos vagarosos terminaram levando-o a uma cadeira do lado de fora de sua casa, na pequena parte coberta antes da porta de entrada, Joaquim deixou-se cair no acolchoado marrom claro. Sentindo todos os ossos estalando com o movimento o idoso deixou uma gargalhada dolorosa escapar. Mesmo tendo um senso de humor extremamente grande, talvez até maior que ele mesmo, os vizinhos não o encaravam muito bem, as crianças o insultavam de estranho e assustador, corriam ao se aproximarem dele e faziam travessuras em seu jardim.
Os próprios adultos não eram tão diferentes, a maioria olhava torto para o idoso todo marcado e ferido, quase como se tivesse alguma doença letal e contagiosa, deixando-se guiar em seus próprios preconceitos não tentavam entender o que havia por trás das marcas e cicatrizes. Havia histórias de que ele tinha sido um grande traficante em seu auge de vida, por isso tinha tantos problemas de saúde e tantos ferimentos pelo corpo devidos as várias brigas por lugares que pudesse vender.
Havia gente que contava historias sobre como ele era um velho sobrevivente da máfia, ou que era um protegido pela polícia e após ser uma testemunha de grande importância. Milhares de murmúrios e conversinhas havia sobre o velho estranho da casa de esquina, porém ninguém se aproximava dele, oferecia-lhe a mão ou pelo menos um sorriso, embebidos pelo medo do que poderia ter causado todos os ferimentos dele. Joaquim chegava a achar tal coisa engraçada, sua vida tinha sido tão diferente de tais histórias que chegava a fazê-lo gargalhar sozinho, ou pelo menos era assim desde que sua esposa tinha se mudado desse mundo.
_Acho que vou visitá-la hoje... Melhor tirar essa barba, não é meu amor? – O velho falou para o ar enquanto pensava com que roupa iria ao cemitério.
Ele entrou e seguiu em seu ritmo para o banheiro, tirando suas roupas devagar, mostrando o entrançado gigantesco de marcas por todo seu corpo, em sua nudez completa o idoso se olhou no espelho, vendo um homem jovem bonito, com traços retos e imponentes, com o peito inflado cheio de medalhas de condecorações militares. O mesmo sorriso que emanava paz, contrastando com o mesmo olho leitoso e rosto marcado pelos restos de uma explosão, ao se jogar para salvar um pequeno grupo de civis o grande homem tivera seu corpo castigado pelo fogo e destroços, marcando-o para sempre para ser esquecido no tempo, deixando de ser aquele forte herói para se tornar apenas o velho estranho da vizinhança.

Antes de ir para debaixo do chuveiro, o antigo Coronel Joaquim, viu o quadro de suas medalhas pendurado na parede e sorriu mais uma vez, não importava o quanto as pessoas próximas dele o achassem feio e estranho, para uma mulher ele tinha sido o homem mais importante e também para aquele pequeno grupo de pessoas ele seria um eterno herói. 

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