O velho Joaquim
caminha vagarosamente pelos corredores de sua casa solitária, arrastando a
perna com cicatrizes e que já não é mais lá essas cosias. Sua bengala serve
mais do que um simples apoio, é quase como uma parte de seu corpo de tanto
tempo que passam juntos. Suas vestes são sempre do mesmo estilo, fofas,
confortáveis e com mangas curtas, mostrando a pele dos braços, num misto de
pelos brancos e pequenas cicatrizes, algumas mal davam para ver enquanto outras
duas eram maiores, como se tivesse sido resultado de uma facada severa.
Os cabelos pálidos
encontravam-se escassos, quase não havia mais aglomerados grandes, a maior
parte da pele era visível e contrastava com o cavanhaque grosso em seu queixo.
Um de seus olhos era leitoso e a pele próxima da região ocular era enrugada demais,
como a pele de um lagarto prestes a fazer a troca. Mesmo com todas as marcas, o
velhinho tinha um sorriso verdadeiro em seus lábios claros, daquele tipo que
traz certa paz apenas de ser observado.
Seus passos vagarosos
terminaram levando-o a uma cadeira do lado de fora de sua casa, na pequena
parte coberta antes da porta de entrada, Joaquim deixou-se cair no acolchoado marrom
claro. Sentindo todos os ossos estalando com o movimento o idoso deixou uma
gargalhada dolorosa escapar. Mesmo tendo um senso de humor extremamente grande,
talvez até maior que ele mesmo, os vizinhos não o encaravam muito bem, as
crianças o insultavam de estranho e assustador, corriam ao se aproximarem dele
e faziam travessuras em seu jardim.
Os próprios adultos
não eram tão diferentes, a maioria olhava torto para o idoso todo marcado e
ferido, quase como se tivesse alguma doença letal e contagiosa, deixando-se
guiar em seus próprios preconceitos não tentavam entender o que havia por trás
das marcas e cicatrizes. Havia histórias de que ele tinha sido um grande
traficante em seu auge de vida, por isso tinha tantos problemas de saúde e
tantos ferimentos pelo corpo devidos as várias brigas por lugares que pudesse
vender.
Havia gente que
contava historias sobre como ele era um velho sobrevivente da máfia, ou que era
um protegido pela polícia e após ser uma testemunha de grande importância. Milhares
de murmúrios e conversinhas havia sobre o velho estranho da casa de esquina, porém
ninguém se aproximava dele, oferecia-lhe a mão ou pelo menos um sorriso,
embebidos pelo medo do que poderia ter causado todos os ferimentos dele.
Joaquim chegava a achar tal coisa engraçada, sua vida tinha sido tão diferente
de tais histórias que chegava a fazê-lo gargalhar sozinho, ou pelo menos era
assim desde que sua esposa tinha se mudado desse mundo.
_Acho que vou visitá-la
hoje... Melhor tirar essa barba, não é meu amor? – O velho falou para o ar
enquanto pensava com que roupa iria ao cemitério.
Ele entrou e seguiu
em seu ritmo para o banheiro, tirando suas roupas devagar, mostrando o entrançado
gigantesco de marcas por todo seu corpo, em sua nudez completa o idoso se olhou
no espelho, vendo um homem jovem bonito, com traços retos e imponentes, com o
peito inflado cheio de medalhas de condecorações militares. O mesmo sorriso que
emanava paz, contrastando com o mesmo olho leitoso e rosto marcado pelos restos
de uma explosão, ao se jogar para salvar um pequeno grupo de civis o grande
homem tivera seu corpo castigado pelo fogo e destroços, marcando-o para sempre
para ser esquecido no tempo, deixando de ser aquele forte herói para se tornar apenas
o velho estranho da vizinhança.
Antes de ir para
debaixo do chuveiro, o antigo Coronel Joaquim, viu o quadro de suas medalhas pendurado
na parede e sorriu mais uma vez, não importava o quanto as pessoas próximas
dele o achassem feio e estranho, para uma mulher ele tinha sido o homem mais
importante e também para aquele pequeno grupo de pessoas ele seria um eterno herói.
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