terça-feira, 24 de novembro de 2015

Memórias - Parte 2

Ela começou a ouvir música vinda do andar superior e prontamente seguiu pelas escadas enquanto via toda a casa ganhar vida. As folhas secas se transformavam em pétalas de rosas, as tábuas rachadas se fechavam e a camada de tinta há tanto sumida simplesmente reaparecia, candelabros nas paredes tinham velas sendo acesas constantemente, os buracos do teto simplesmente se fechavam e os quadros pendurados nas paredes do corredor principal ganhavam tons vivos outra vez.
O som ficava mais alto à medida que ela avançava em busca do grande salão de festas da residência. A mulher passou em frente a um espelho e viu que não estava sozinha, aquele que um dia fora seu grande amor estava logo atrás dela, segurando sua mão com extrema gentileza e leveza. Ele vestia um terno risca de giz bastante alinhado e bem cuidado, bem no bolso acima de seu coração havia um cravo vermelho bastante frondoso, luvas brancas cobriam suas mãos grandes e fortes, a barba estava para fazer, uma cartola escondia parte de seu rosto e com a posição em que estava mal dava para vê-lo. Ele passou por ela numa rapidez alucinante, girando-a com facilidade, antes mesmo que ela desse por si já estava no centro do salão de festas.
Mesas com os mais variados tipos de pratos sofisticados formavam um grande U na parede oeste, algumas pessoas conversavam tranquilamente enquanto comiam satisfeitas. O lustre central brilhava com estupenda beleza, numa chuva de luz e cristais para todos os lados, refletindo a clareza da vida para todos. Alguns homens tocavam uma marcha clássica na parede oposta com a do bufê, onda de música explodiam das cordas graves dos violoncelos e das teclas fortes do piano negro de cauda. Presentes se acumulavam em uma parte esquecida do salão, um grande bolo branco encontrava-se rodeado por crianças e mulheres muito bem vestidas.
Assim que o casal entrou pelas grandes portas decoradas com um aro enorme feito com muitas flores bastante perfumadas, todos do recinto focaram seus olhares, até mesmo a banda parou de tocar, apenas para recomeçar uma marcha nupcial mista de musica alegre com uma chuva de aplausos.
Eles dançaram sua valsa com grande paixão, deixando que o amor sentido escapasse de cada passo que davam, o grande vestido branco rodava para os lados, arrastando pétalas de rosa para o ar, fazendo com que também bailassem pelo salão, tudo parecia à perfeição, aquele momento que nunca tivera e que sempre esperou ter. As lágrimas desciam pelo rosto da mulher quando a musica parou e o homem a beijou nos lábios com extrema paixão. Era o ápice de sua vida, a felicidade mais intensa que sentiu em tantos anos, ela poderia viver aquele segundo para sempre sem se importar com nada, para ela a vida havia sido plena e aquele momento serviu como a chave de ouro final para trancar os portões.
Ela abriu seus olhos mais uma vez e viu uma a uma as pessoas à sua volta se desfazendo em fumaça, a comida das meses apodreceu e transformou-se em poeira, as mesas caíram e viraram montes de madeira escura e prestes a se desfazer por completo. O grande bolo de casamento explodiu em cacos de luz, as velas dos candelabros apagaram-se uma a uma, os instrumentos evaporaram e seus músicos sumiram igual aos convidados, mas antes deram um sorriso e fizeram uma reverencia ao casal. Todo o salão encontrava-se decadente outra vez, repleto de mofo, teias de aranha e folhas secas, mas o noivo ainda estava lá, olhando para a mulher.
_Foi uma vida muito boa ao seu lado, infelizmente não pude vive-la por mais anos. – A voz dele era quase como uma brisa fria e diante dos olhos dela seu amado sumiu no ar.
_Você viveu tudo o que pôde e me deu motivos para terminar minha vida de uma forma tão feliz, adeus meu querido Mefisto...
Toda a beleza da juventude abandonou o corpo dela, de forma que a pele enrugou mais uma vez, as marcas do tempo voltaram, os cabelos clarearam e a idade castigou-a novamente. A senhora encontrava-se ajoelhada no centro do salão, com um sorriso nos lábios, lágrimas no rosto e felicidade no coração. O pente dourado estava em suas mãos e naquele instante ela sentiu a vida partindo de seu corpo, num gesto de bom grado ela deixou-se levar e caiu morta no chão de mármore branco, deixando que o pente dourado rolasse pelo piso. E quando parou os dois últimos rubis se desprenderam juntos, inseparáveis como foram ela e seu amado por tantos anos e como seriam a partir de então num outro plano.


Nenhum comentário:

Postar um comentário