Ela começou a ouvir música vinda do andar
superior e prontamente seguiu pelas escadas enquanto via toda a casa ganhar
vida. As folhas secas se transformavam em pétalas de rosas, as tábuas rachadas
se fechavam e a camada de tinta há tanto sumida simplesmente reaparecia,
candelabros nas paredes tinham velas sendo acesas constantemente, os buracos do
teto simplesmente se fechavam e os quadros pendurados nas paredes do corredor
principal ganhavam tons vivos outra vez.
O som ficava mais alto à medida que ela
avançava em busca do grande salão de festas da residência. A mulher passou em
frente a um espelho e viu que não estava sozinha, aquele que um dia fora seu
grande amor estava logo atrás dela, segurando sua mão com extrema gentileza e
leveza. Ele vestia um terno risca de giz bastante alinhado e bem cuidado, bem
no bolso acima de seu coração havia um cravo vermelho bastante frondoso, luvas
brancas cobriam suas mãos grandes e fortes, a barba estava para fazer, uma
cartola escondia parte de seu rosto e com a posição em que estava mal dava para
vê-lo. Ele passou por ela numa rapidez alucinante, girando-a com facilidade,
antes mesmo que ela desse por si já estava no centro do salão de festas.
Mesas com os mais variados tipos de pratos
sofisticados formavam um grande U na parede oeste, algumas pessoas conversavam
tranquilamente enquanto comiam satisfeitas. O lustre central brilhava com
estupenda beleza, numa chuva de luz e cristais para todos os lados, refletindo
a clareza da vida para todos. Alguns homens tocavam uma marcha clássica na
parede oposta com a do bufê, onda de música explodiam das cordas graves dos
violoncelos e das teclas fortes do piano negro de cauda. Presentes se
acumulavam em uma parte esquecida do salão, um grande bolo branco encontrava-se
rodeado por crianças e mulheres muito bem vestidas.
Assim que o casal entrou pelas grandes
portas decoradas com um aro enorme feito com muitas flores bastante perfumadas,
todos do recinto focaram seus olhares, até mesmo a banda parou de tocar, apenas
para recomeçar uma marcha nupcial mista de musica alegre com uma chuva de
aplausos.
Eles dançaram sua valsa com grande paixão,
deixando que o amor sentido escapasse de cada passo que davam, o grande vestido
branco rodava para os lados, arrastando pétalas de rosa para o ar, fazendo com
que também bailassem pelo salão, tudo parecia à perfeição, aquele momento que
nunca tivera e que sempre esperou ter. As lágrimas desciam pelo rosto da mulher
quando a musica parou e o homem a beijou nos lábios com extrema paixão. Era o
ápice de sua vida, a felicidade mais intensa que sentiu em tantos anos, ela
poderia viver aquele segundo para sempre sem se importar com nada, para ela a
vida havia sido plena e aquele momento serviu como a chave de ouro final para
trancar os portões.
Ela abriu seus olhos mais uma vez e viu
uma a uma as pessoas à sua volta se desfazendo em fumaça, a comida das meses
apodreceu e transformou-se em poeira, as mesas caíram e viraram montes de
madeira escura e prestes a se desfazer por completo. O grande bolo de casamento
explodiu em cacos de luz, as velas dos candelabros apagaram-se uma a uma, os
instrumentos evaporaram e seus músicos sumiram igual aos convidados, mas antes
deram um sorriso e fizeram uma reverencia ao casal. Todo o salão encontrava-se
decadente outra vez, repleto de mofo, teias de aranha e folhas secas, mas o
noivo ainda estava lá, olhando para a mulher.
_Foi uma vida muito boa ao seu lado,
infelizmente não pude vive-la por mais anos. – A voz dele era quase como uma
brisa fria e diante dos olhos dela seu amado sumiu no ar.
_Você viveu tudo o que pôde e me deu
motivos para terminar minha vida de uma forma tão feliz, adeus meu querido Mefisto...
Toda a beleza da juventude abandonou o
corpo dela, de forma que a pele enrugou mais uma vez, as marcas do tempo
voltaram, os cabelos clarearam e a idade castigou-a novamente. A senhora
encontrava-se ajoelhada no centro do salão, com um sorriso nos lábios, lágrimas
no rosto e felicidade no coração. O pente dourado estava em suas mãos e naquele
instante ela sentiu a vida partindo de seu corpo, num gesto de bom grado ela
deixou-se levar e caiu morta no chão de mármore branco, deixando que o pente
dourado rolasse pelo piso. E quando parou os dois últimos rubis se desprenderam
juntos, inseparáveis como foram ela e seu amado por tantos anos e como seriam a
partir de então num outro plano.
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