domingo, 29 de novembro de 2015

A estrela de sangue

Aquela bela mulher estava ajoelhada no chão, uma expressão mista de dor e surpresa se entalhando como uma máscara sobre sua face frágil e marcada pelos avanços da idade. Os cabelos negros como o tronco de um centenário carvalho o qual tivesse sido lambido por línguas esfomeadas de fogo tinham fios cinza como o brilho morto das estrelas prestes a se apagarem que se espalhavam numa bagunça de madeixas, panos e sangue.
Seus olhos pretos como pequenos fragmentos de carvão embebidos em petróleo morto encontravam-se arregalados e levemente brilhantes com as lágrimas tão salgadas quanto uma gota do mar que começavam a se acumular para que por fim pudessem saltar do precipício da linha ocular e desbravar a pele quente e clara dela. 
A boca de lábios finos, delicados e de tom claro como as pétalas sedosas de uma orquídea cor de rosa sutil estava aberta e deixando emitir pela vibração das cordas vocais um som lacerante tal qual um animal agonizante ao se perder do grupo e deparar-se com um predador letal e faminto. A úvula vermelha começou a se banhar não só em saliva como também em sangue, que vinha subindo pela garganta, destruindo os vasos que encontrava pelo caminho.
A cabeça caiu para trás num júbilo de morte, fazendo um estalo tomar conta dos ouvidos da mulher ao alinhar pela última vez suas vértebras, colocando-a numa posição perfeita, digna de se imortalizar numa pintura ou estátua. Os cabelos balançaram formando uma coroa respingando gotas rubras para todas as direções, enquanto o corpo ajoelhado e de braços abertos servia de passagem para que a vida se esvaísse diante do olhar dolorido de todos. Por fim o sangue espirrava para frente em jatos fortes e sem fim, ao escaparem do corte profundo e letal entalhado em seu abdômen fraco.

As carnes estavam fracas, tudo sobre si tremia e sem aguentar-se mais ela caiu para o lado numa confusão de panos e braços. Totalmente deitada no chão ela juntou suas mãos perto do peito e sentiu sua alma se desprendendo do interior, fechou os olhos uma última vez e partiu formando uma estrela negra de fios marrons e cinzas, a envergadura de um feto prestes a conhecer os prazeres e terrores do mundo e também uma rosa de sangue, com pétalas grandes e redondas, aveludadas com volume e quase textura... Nisso ela deixou o mundos dos vivos, sobre aquele chão simples de terra batida por culpa do fio da espada de um bárbaro inescrupuloso. 

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