terça-feira, 24 de novembro de 2015

Memórias - Parte 1

 Era uma grandiosa colina com inclinação até acentuada e no topo uma mansão, que um dia fora estupenda, se projetava quase que esquecida pelo tempo. Na base da propriedade um murinho baixo de tijolos visíveis se esticava para os lados e no centro havia um portão de ferro bastante trabalhado que em seu ponto de encontro tinha dois anjinhos segurando a fechadura. Trepadeiras e musgos cresciam por todos os lados, a maior parte já até tinha morrido pela falta de água e agora restava apenas os restos mortais secos e marrons.
Uma mão enrugada e também marcada pelo tempo encontrou uma chave trabalhada em ferro antigo, no estilo vintage e a colocou no espaço entre os pequenos seres angelicais, rompendo teias de aranha e fazendo o portão ranger, soltando algumas migalhas de ferrugem ao ser empurrado para trás, deixando que o caminho para a mansão decadente se projetasse colina acima.
Grandes árvores acompanhavam por todos os lados, porém agora só lhes restava os troncos escurecidos e mortos, os galhos secos se projetando para todas as direções como mãos fantasmas e solitárias enquanto as folhas marrons e quebradiças formavam um tapete barulhento sob os pés da idosa que continuava a subir, olhando para tudo com uma expressão de tristeza entalhando-se em seu rosto já meio molhado por poucas lágrimas.
Seus cabelos branco-cinzentos estavam armados num coque com o auxílio de um pente dourado marcado pelo tempo e por tantas memórias felizes, ainda havia duas pedras vermelhas nele, as outras cinco simplesmente foram caindo, mas aquelas duas ainda estavam lá, como um casal inseparável, bem na parte mais central, como um coração amante. Suas vestes eram as mais simples possíveis, apenas um vestido escuro, confortável e fofo, que sempre a acompanhara nos momentos mais tristes de sua vida, como aquela escuridão sempre presente e que acabou por tornar-se uma parceira quase inseparável.
Mais e mais folhas rachavam sob os pequenos e frágeis pés, o coração dela batia acelerado e o fôlego tinha lhe abandonado quase que cem por cento, contudo sua vontade era grande demais para se abater desse modo, ela tinha que voltar ali, era preciso ver aquela pessoa outra vez, pelo menos uma última vez... Não podia mantê-la viva apenas em suas memórias mais dolorosas, era preciso aquele adeus.
A grandiosa mansão estava a poucos metros de ser tocada mais uma vez, era uma construção estupenda e bastante resistente por ter aguentado mais de cinquenta anos sem ter qualquer cuidado. Tinha dois andares e seu sótão se esticava como se entalhado, as janelas trancadas com tábuas em cruz pareciam refletir a tristeza da idosa, toda as paredes de madeira estavam repletas de furos de cupins, telhas estavam quebravas e várias haviam sumido, talvez roubadas. A velha enfiou a mão enrugada em suas vestes e puxou do espaço entre os seios a segunda chave antiga e rompeu o cordão pendurado em seu pescoço fraco, pronta para o seu último momento com aquela pessoa.
A mão tremendo empurrou o instrumento fechadura adentro e sentiu o corpo relaxar e enrijecer simultaneamente quando ouviu o clique e conseguiu empurrar a porta para trás com um barulho típico, arrastando uma camada de poeira grossa pelo chão e rasgando mais e mais teias de aranha.
_É agora, chegou o momento... – A velhinha murmurava para si como se tentasse acalmar seu coração desesperado.
A grande sala estava quase como ela se lembrava desde a última vez que estivera ali: duas escadas em espiral se contrapondo e levando para o andar superior onde vários quartos esperavam por visitantes, uma lareira na parede norte, agora fechada com tábuas, algumas tapeçarias nas laterais, a maior parte rasgada ou suja demais para se considerar algo valioso, folhas por todo o piso cobrindo o já presente tapete de veludo vermelho, bastante rasgado e já marrom por tanta poeira acumulada. Um vento frio passeou pelo cômodo e brincou com os cabelos e as vestes da senhora, quase como se alguém a agarrasse pelo braço e a puxasse para dança, fazendo rodopiar pelo salão, até que estava parada em pé no centro de tudo e nada estava mais como antes.
A lareira estava cuspindo chamas vivas e alegres, inundando o salão com um calor agradável, as tapeçarias cintilavam como se fossem recém-feitas, exibindo cenas dos antigos povos em suas reuniões mais especiais. O grande tapete vermelho estava limpo, como se tivesse acabado de ter recebido uma escovada forte, deixando seus pelos rubros fofos e agradáveis sob os pés. As escadas estavam limpas e em seus corrimões dourados haviam trançados de flores, nas paredes velas se acenderam para iluminar apoiadas em seus castiçais, Até mesmo a senhora havia mudado, seu vestido preto agora era totalmente branco, quase como se esculpido em uma fina camada de neve, os cabelos eram negros como carvão e desciam em cachos até quase a cintura, o pente de ouro com rubis estava lá, totalmente novo e intacto. A pele agora se encontrava lisa e sedosa, sem marcas do tempo, as rugas desapareceram, varizes e todas as outras marcas desfizeram-se. Um sorriso largo abriu-se envolto pelos lábios cor de sangue da mulher, assim que ela sentiu um cordão pesando em seu pescoço, sabia que o broche era um rubi esculpido como um coração.


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