Uma mão enrugada e também marcada pelo
tempo encontrou uma chave trabalhada em ferro antigo, no estilo vintage e a
colocou no espaço entre os pequenos seres angelicais, rompendo teias de aranha
e fazendo o portão ranger, soltando algumas migalhas de ferrugem ao ser
empurrado para trás, deixando que o caminho para a mansão decadente se
projetasse colina acima.
Grandes árvores acompanhavam por todos os
lados, porém agora só lhes restava os troncos escurecidos e mortos, os galhos
secos se projetando para todas as direções como mãos fantasmas e solitárias
enquanto as folhas marrons e quebradiças formavam um tapete barulhento sob os
pés da idosa que continuava a subir, olhando para tudo com uma expressão de
tristeza entalhando-se em seu rosto já meio molhado por poucas lágrimas.
Seus cabelos branco-cinzentos estavam
armados num coque com o auxílio de um pente dourado marcado pelo tempo e por
tantas memórias felizes, ainda havia duas pedras vermelhas nele, as outras
cinco simplesmente foram caindo, mas aquelas duas ainda estavam lá, como um
casal inseparável, bem na parte mais central, como um coração amante. Suas
vestes eram as mais simples possíveis, apenas um vestido escuro, confortável e
fofo, que sempre a acompanhara nos momentos mais tristes de sua vida, como
aquela escuridão sempre presente e que acabou por tornar-se uma parceira quase
inseparável.
Mais e mais folhas rachavam sob os
pequenos e frágeis pés, o coração dela batia acelerado e o fôlego tinha lhe
abandonado quase que cem por cento, contudo sua vontade era grande demais para
se abater desse modo, ela tinha que voltar ali, era preciso ver aquela pessoa
outra vez, pelo menos uma última vez... Não podia mantê-la viva apenas em suas
memórias mais dolorosas, era preciso aquele adeus.
A grandiosa mansão estava a poucos metros
de ser tocada mais uma vez, era uma construção estupenda e bastante resistente
por ter aguentado mais de cinquenta anos sem ter qualquer cuidado. Tinha dois
andares e seu sótão se esticava como se entalhado, as janelas trancadas com
tábuas em cruz pareciam refletir a tristeza da idosa, toda as paredes de
madeira estavam repletas de furos de cupins, telhas estavam quebravas e várias haviam
sumido, talvez roubadas. A velha enfiou a mão enrugada em suas vestes e puxou
do espaço entre os seios a segunda chave antiga e rompeu o cordão pendurado em
seu pescoço fraco, pronta para o seu último momento com aquela pessoa.
A mão tremendo empurrou o instrumento
fechadura adentro e sentiu o corpo relaxar e enrijecer simultaneamente quando
ouviu o clique e conseguiu empurrar a porta para trás com um barulho típico,
arrastando uma camada de poeira grossa pelo chão e rasgando mais e mais teias
de aranha.
_É agora, chegou o momento... – A velhinha
murmurava para si como se tentasse acalmar seu coração desesperado.
A grande sala estava quase como ela se
lembrava desde a última vez que estivera ali: duas escadas em espiral se contrapondo
e levando para o andar superior onde vários quartos esperavam por visitantes,
uma lareira na parede norte, agora fechada com tábuas, algumas tapeçarias nas
laterais, a maior parte rasgada ou suja demais para se considerar algo valioso,
folhas por todo o piso cobrindo o já presente tapete de veludo vermelho,
bastante rasgado e já marrom por tanta poeira acumulada. Um vento frio passeou
pelo cômodo e brincou com os cabelos e as vestes da senhora, quase como se alguém
a agarrasse pelo braço e a puxasse para dança, fazendo rodopiar pelo salão, até
que estava parada em pé no centro de tudo e nada estava mais como antes.
A lareira estava cuspindo chamas vivas e
alegres, inundando o salão com um calor agradável, as tapeçarias cintilavam
como se fossem recém-feitas, exibindo cenas dos antigos povos em suas reuniões
mais especiais. O grande tapete vermelho estava limpo, como se tivesse acabado
de ter recebido uma escovada forte, deixando seus pelos rubros fofos e
agradáveis sob os pés. As escadas estavam limpas e em seus corrimões dourados
haviam trançados de flores, nas paredes velas se acenderam para iluminar
apoiadas em seus castiçais, Até mesmo a senhora havia mudado, seu vestido preto
agora era totalmente branco, quase como se esculpido em uma fina camada de
neve, os cabelos eram negros como carvão e desciam em cachos até quase a
cintura, o pente de ouro com rubis estava lá, totalmente novo e intacto. A pele
agora se encontrava lisa e sedosa, sem marcas do tempo, as rugas desapareceram,
varizes e todas as outras marcas desfizeram-se. Um sorriso largo abriu-se
envolto pelos lábios cor de sangue da mulher, assim que ela sentiu um cordão
pesando em seu pescoço, sabia que o broche era um rubi esculpido como um
coração.
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