quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Palhaço

Ele está sentado em um banco simples com um acolchoado marrom redondo para não ser tão incomodo, olhando para um espelho grande e com algumas marcas de sujeira, como se implorasse para ser limpo. Várias lampadas amarelas fazem um contorno de luz ao redor do vidro, algumas piscando, outras já apagadas, mas com uma maioria ainda funcionando. Há uma bancada sob o espelho e ela está cheia de pós, itens de maquiagem dos mais variados tipos, potes longos e finos, baixos e gordinhos, máscaras estão largadas num cabideiro ao lado da mesinha espelhada, algumas perucas multicoloridas também disputavam apoio nos ganchos esculpidos na madeira bruta. Pessoas passam o tempo inteiro atrás dele, cada uma buscando seu lugar, algumas falando que a noite foi um sucesso, outras chorando por não terem conseguido fazer o que mais queriam, poucos até vinham até ele e davam-lhe os parabéns por ter sido a melhor apresentação e nisso ele colocava um sorriso forçado no rosto, o qual ficava tão grande que tocava de orelha a orelha, mesmo que por dentro as lágrimas o afogassem devagar.
O grande e redondo nariz vermelho foi tirado do rosto e solto na mesa, fazendo um barulho de buzina quando apertado. A peruca verde e azul com apenas dois grandes tufos de cabelo foi tirada da cabeça e deixada de lado quase como se fosse algo perverso de se usar e ferisse a pele. Uma almofadinha limpa veio em direção ao seu rosto e começou a arrancar a camada de pó branco sobre a face, revelando um tom mais humanizado, mais vivo. Enquanto continuava no processo de limpeza o palhaço voltava a ouvir as milhares de gargalhas e aplausos, as pessoas se contorcendo de rir em sua frente como se nunca tivessem visto um show assim em circos.
A medida que a pintura feita no rosto ia sendo arrancada a alegria falsa também ia se esvaindo, revelando quem ele realmente era: uma visão de uma profunda depressão. O sorriso falso, vermelho e e gigantesco estava saindo devagar enquanto as lágrimas começavam a vazar, escorrendo pelas bochechas rosadas puxando o resto do pó branco.
Não havia mais ninguém ali, as bailarinas haviam saído saltitantes, o mágico exibicionista se fizera desaparecer em meio a fumaça para então correr sorrateiramente até a saída mais próxima, Os domadores ficaram se vangloriando por terem mais aplausos que todos lá, quase como se fossem leões desafiando os outros a tentarem a sorte, as trapezistas e os contorcionistas saíram conversando e fazendo gestos, Todos os artistas deixaram os bastidores e apagaram as luzes, exceto um...
 O palhaço permanecia lá, sentado de frente para o espelho, com poucas lâmpadas funcionando, solitário em meio aos seus fantasmas e demônios, vendo-se refletido com um sorriso e sempre sendo o sinônimo da felicidade, mas para ele mesmo, em sua verdade escondida, no silêncio do escuro, na mais profunda realidade ele sofria sem um fim aparente, as lágrimas não conseguiam acalmar seu desespero, permanecia o rasgo profundo, a mesma depressão, que todas as noites era maquiada de branco, vermelho e verde e azul e mentia dizendo que era alegria.

Nenhum comentário:

Postar um comentário