quarta-feira, 18 de novembro de 2015

O homem e seu teto

Há um homem caído de costas nuas para o chão frio, o piso de cerâmica branca chega a parecer uma tábua de gelo entalhada para ser reta. Seus olhos negros como o chão da floresta virgem que tinha sido devorada por labaredas de fogo selvagem encaram o teto com uma precisão angustiante. Ele ficou olhando aquela camada grossa de cimento e gesso a qual fora alisada por mãos experientes e ficara tão liso quanto um vidro. Após tanto tempo focado na mesma paisagem seu cérebro, talvez entediado, começa a lhe pregar peças e nisso ele vê um sorriso abrindo-se na grossa camada de gesso pintado de cinza pálido.
_Por que estás assim, filho de Adão? - A voz é seca e áspera, não podia ser diferente já que veio da própria parede.
_Largado seminu nesse chão frio? É isso que queres saber, teto?
_Não... O que procuro saber é porque deixou-se ficar assim e não porque está assim. - Uma mão brota de canto algum e começa a mexer no que o homem julga ser o queixo do tal rosto, coçando-o num gesto de indecisão, como se não tivesse certeza de suas palavras.
_Ah, acho que entendi... Como vim parar nesse estado, é isso que queres saber, teto? - Ele não sai da sua posição, permanece de pernas esticadas e paralelas, cobertas pelo moletom azul escuro, mantendo os braços abertos o máximo possível, formando um ângulo de 180° com sua cabeça.
_É! Exatamente isso que quero saber, filho de Adão... Qual foi a causa que lhe trouxe até meu universo. - Ele arregalou seu sorriso e os olhos ficaram mais marcados.
_Ah... Acho que foi por minha culpa mesmo... Não aguentei mais viver no meio da falsidade do mundo, sabe? Colocar aqueles belos sorrisos no rosto enquanto por dentro eu nadava com máxima força para não me afogar no meu mar de lágrimas... Ou ter que levantar todas as manhãs fingindo a perfeita sintonia com tudo e todos quando, na verdade, encontrava-se desfeito em cacos e passava horas e até dias para conseguir colar tudo outra vez apenas para que alguém me desfizesse outra vez num ciclo vicioso... Ou de olhar para os outros e ao ver que os mesmos se encontravam caindo fazê-los levantar, mas saber que nunca alguém faria o mesmo por mim, que na verdade muitos até sentariam na beirada do penhasco apenas para ver-me cair de um ângulo melhor. - Parou de falar assim que sentiu duas rajadas de frio sobre seu corpo e ao olhar para cima percebeu que o teto estava chorando, suas lágrimas eram grandes e pesadas, tais quais uma bola de boliche.
_Sua presença é muito bem vinda aqui, filho de Adão. - Ele falou entre soluços gigantes, certo momento teve até que pegar o lençol de minha cama e usá-lo como um lenço. - Se ainda quiser falar estarei sempre aqui... Posso até ser um pouco estranho ou realmente não existir para os outros, mas saiba que eu realmente existo, eu vim de você, eu sou a voz que você procurava no fim do abismo... Sou o seu lado mais escondido e estarei aqui sempre que precisar falar....
_Obrigado, teto, acho que teremos muitas histórias para compartilhar.
E nisso eles continuaram a conversar noite adentro, era visível que tinham muitas palavras a trocar e as memórias serviriam como a dose de álcool necessária para dar-lhes a embriagues desses momentos em questão.

Um comentário:

  1. Nossa Abraão, você não sabe como eu adorei... Gostei mesmo é tão uma verdade cotidiana 😌

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